Advogada Jéssica Nascimento explica como a manipulação psicológica, o medo e o vínculo emocional tornam o rompimento com o agressor um processo longo e doloroso
O recente caso envolvendo o ator Dado Dolabella e a influenciadora Marcela Tomaszewski reacendeu o debate sobre por que tantas mulheres demoram — ou desistem — de denunciar seus agressores. Apesar das evidências e da repercussão pública, o comportamento de recuo da vítima, muitas vezes interpretado como contradição, é na verdade um reflexo direto do ciclo da violência doméstica.
A advogada Jéssica Nascimento, especialista em Direito de Família e Violência Doméstica, explica que o padrão de comportamento visto no caso de Marcela é mais comum do que se imagina.
“O comportamento que estamos vendo da Marcela Tomaszewski é, infelizmente, muito comum em mulheres que estão inseridas no ciclo da violência doméstica. Esse ciclo é marcado por fases: a lua de mel, a tensão, a explosão e a reconciliação”, afirma.
Segundo a especialista, esse processo psicológico provoca confusão e dependência emocional. “Uma mulher que vive esse processo enfrenta uma avalanche de sentimentos, muitas vezes 24 horas por dia. Ela passa a duvidar de si mesma, a se responsabilizar pela violência sofrida e a acreditar que algo que fez provocou a agressividade do parceiro. Esse é exatamente o efeito da manipulação psicológica, que costuma anteceder e sustentar a violência física.”
Jéssica ressalta que a manipulação emocional e o controle exercidos pelo agressor reduzem a capacidade de discernimento e reação da vítima. “A mulher passa por um embaralhamento mental que reduz sua capacidade de análise, decisão e autoproteção”, explica.
O contato zero é fundamental
Romper com o agressor é uma das etapas mais difíceis. “Uma mulher que ainda mantém contato com o agressor dificilmente conseguirá romper o ciclo. A interrupção do vínculo, o chamado ‘contato zero’, é essencial”, orienta a advogada.
Segundo ela, esse afastamento inclui não apenas deixar de se comunicar com o agressor, mas também se afastar de pessoas que minimizam a violência ou reforçam narrativas que culpabilizam a vítima.
A vítima continua sendo vítima
Muitas vezes, a mulher nega a agressão, defende o agressor ou até ataca quem tenta ajudá-la. Para Jéssica, isso não é falta de coragem, mas um sintoma do trauma.
“Negar a agressão, defender o agressor e atacar quem tenta ajudar são reações muito frequentes quando a vítima está confusa, fragilizada e ainda sob o domínio psicológico do autor da violência. Não se trata de ingratidão ou de mentira, é efeito da violência.”
O sistema de justiça, segundo ela, tem evoluído justamente para lidar com essas situações. “Hoje, os crimes de violência doméstica são, em regra, alvo de ação penal pública incondicionada. Isso significa que, uma vez feita a denúncia, o Ministério Público tem o dever de prosseguir com o caso, independentemente de a vítima manter ou não o relato posteriormente.”
A advogada reforça que o recuo da vítima não invalida a violência sofrida. “O Judiciário reconhece que essa mulher pode, sim, recuar — mas não porque a violência não existiu, e sim porque o abuso segue produzindo efeito sobre ela. Quando a mulher volta atrás, quando nega, quando protege o agressor, ela não deixou de ser vítima. Ela continua sendo violentada.”
Acolhimento, não julgamento
Mais do que nunca, o caso evidencia a importância de empatia e acolhimento. “Em vez de julgamento, o que essa mulher precisa é de acolhimento, informação qualificada e acompanhamento psicológico especializado”, diz Jéssica Nascimento.
“Romper com a violência não é um ato pontual, é um processo complexo e visceral. É preciso compreender que sair desse ciclo exige tempo, apoio e, acima de tudo, segurança.”