Por Fran Muraca pesquisadora e doutora em felicidade
À medida que o ano se aproxima do fim, eu percebo,assim como muitos de nós,que uma espécie de convocação silenciosa acontece dentro da mente. É como se o calendário, ao virar suas últimas páginas, abrisse também as gavetas internas onde guardamos lembranças, escolhas, encontros, tropeços e conquistas. É um período em que revisitar memórias se torna quase inevitável. E, ao contrário do que muitos imaginam, esse movimento não é sinônimo de nostalgia melancólica ou de um olhar saudosista preso ao passado.
Como pesquisadora e doutora em felicidade, observo algo fascinante: quando feito com intencionalidade, esse exercício de relembrar pode ser um potente gatilho para a produção de serotonina ,um dos neurotransmissores mais associados à sensação de bem-estar, estabilidade emocional e contentamento.
A serotonina não é apenas “o hormônio da felicidade”, como se costuma simplificar. Ela participa da regulação do humor, do sono, do apetite, da memória e até da percepção de significado. E é justamente aí que mora um ponto essencial: conectar-se com lembranças que reforçam identidade, aprendizado, pertencimento e superação cria um terreno fértil para que a química do bem-estar se manifeste.
Quando revisito minhas memórias de um ano inteiro , as boas, as difíceis, as que me desafiaram a crescer, não busco idealizar o passado, mas compreendê-lo como parte da minha narrativa. Esse processo de atribuir sentido a experiências vividas desperta em mim uma sensação profunda de coerência interna. E a coerência, sabemos pelas pesquisas em bem-estar subjetivo, é um dos caminhos mais efetivos para estabilizar a produção de serotonina.
É por isso que costumo orientar meus pacientes, alunos e leitores a não evitarem essas reflexões de fim de ano. O problema não está em olhar para trás; está em olhar sem propósito, sem cuidado ou sem estrutura emocional. Quando revisitamos memórias com gentileza, responsabilidade e curiosidade, acessamos recursos internos que fortalecem nossa saúde mental.
O fim de ano tem, portanto, um valor biológico e emocional que muitas vezes passa despercebido. Ele nos convida a retomar histórias que dão textura à nossa jornada, que reafirmam conquistas, que lembram nossa capacidade de adaptação e que iluminam o que desejamos levar adiante.
Essa prática não precisa, e nem deve, ser uma viagem melancólica. Ela pode ser profundamente nutritiva. Pode estabilizar humores, fortalecer autoestima, e até preparar o cérebro para iniciar um novo ciclo com mais equilíbrio emocional.
Quando nos permitimos celebrar pequenas vitórias, reconhecer aprendizados e agradecer trajetórias, estamos, na verdade, estimulando uma química muito concreta dentro de nós. Uma química que nos apoia, nos acolhe e nos organiza.
Ao final, revisitar memórias não é permanecer no passado: é assegurar que o futuro seja construído sobre bases afetivas mais sólidas. E, nesse processo, a serotonina agradece — silenciosa, mas ativa, pavimentando caminhos de bem-estar para o novo ano que chega.
Sobre Fran Muraca
Francisca Muraca é doutoranda em Ciências da Saúde na Universidade Federal de São Paulo – DDI- EPM/ UNIFESP. Além de ser advogada e contabilista, ela é apresentadora do Programa Em Frente as Feras na TV Aberta e mentora de negócios na área da saúde. Muraca também ocupa o cargo de head jurídica na Pront – Plataforma de Saúde Integrativa, diretora jurídica na MEDCONTCONSULTORIA e é fundadora da M2S Conectividade. Com experiência em Direito Médico e da Saúde, sua atuação abrange planejamento empresarial, tributário, previdenciário, direito internacional, direito médico e empreendedorismo social. Ela é conselheira fiscal na UNACCAM (União e Apoio no Combate ao Câncer de Mama), além de Diretora Administrativa no Instituto Mães Brasil e Vice Presidente no Instituto Quais de Mim Você Procura.
Fran Muraca atua como advogada dativa do Conselho Regional de Medicina de São Paulo Também é vice-presidente na Divine Academie Francesa de Letras e no Clube de Mulheres de Negócios de Portugal. Instagram: @franmuracaoficial